Lobolo ou legitimação da violência doméstica?

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Lobolo ou legitimação da violência doméstica?

O lobolo é uma prática comum enraizada no sul de Moçambique. De acordo com esta tradição, a família do noivo paga um "dote" a família da noiva, como sinal de gratidão por terem criado, educado bem a noiva. Fala-se que antigamente, a mulher era lobolada virgem, e que no dia que segue ao de Xiguiane (ida da noiva para casa do noivo) as tias do noivo tinham de apurar a virgindade da nora, caso não se connstatasse, a família desta tinha de pagar uma multa. 
O lobolo, segundo o que apurei, para além da gratidão, é uma forma de uninão das duas famílias, em que passam a se conhecer. Sendo que, após o lobolo qualquer membro de cada uma das famílias pode visitar a outra, seja em momentos de festa ou em momentos de tristeza.
Falando do momento de tristeza, consta que algumas famílias, chegam a obrigar o noivo a lobolar a esposa mesmo sem vida ( caso não tenha feito antes). Este fato, faz com que a família do noivo e o próprio noivo, sinta a pressão para oficializar a relação, dado que, o medo de ser cobrado valores avultados durante o período da dor (pela perda da sua companheira) é maior.

Sendo o lobolo uma prática tradicional, qual tem sido o valor do "dote" ???
Houve alturas em que em Moçambique, na prática do lobolo as famílias da noiva exigiam como sinal de “troca”, esteiras, pilões, enxadas, aliás uma senhora conta que na decada de 80 do século passado, os pais cobrabra " tihaca( frutos de cacana) e 2 escudos" dado que naquela altura ter esses frutos era muito fundamental para a alimentação( lembra-se que em 1983 houve uma fome devastadora no verdadeiro sentido).
Mas com tempo as exigências foram mudando, passando a ser alianças de ouro( sendo que os jovens nessa altura emigravam para as minas da África do Sul), depois passou a se cobrar gado, cabritos, capulanas, panelas de alunínio, Fatos para os pais. 

Atualmente, o lobolo tem acaretado custos assustadores, o que torna essa prática controvérsia, se por um lado a quem diga que é justo que a família da noiva exija quantias que quiser, dado que "foi um grande investimento para fazer a filha crescer, ir a escola, e no final quando ela começa atrabalhar o Cara vem carregar???" (sic.), por outro, os que não concordam com as exigências avultadas afirmam que " eu não vejo porque cobrar tanto dinheiro porque se é para dar aos antepassados, esses não precisam de muito..." (sic.) " cobrar muito dinheiro é tratar a filha como objeto, uma mercadoria" (sic.).

E como são geridos os conflitos no seio do casamento após o lobolo?

De acordo com Cláudia Casimiro(2002) o seio familiar perdeu o seu estatuto de lugar onde as pessoas buscam os valores, o conforto, a segurança, a proteção, o espaço onde deviam encontar o refúgio da pressão cotidiana. A família é o lugar onde a afeição e agressão coexistem, é onde acontece os crimes mais perigosos e em silêncio, estamos a falar da violência doméstica, como é que a família da noiva reage? 

Apois terem recebido e usufruido do "dote" que atualmente envolve custos imensuráveis, dado que para além da festa que o noivo tem de organizar e das roupas como é o caso do mucume ou mwenda( um leçol que é feito de 4 capulanas e uma renda), lenços, blusas e fatos para a família da noiva, o dote inclui sobre tudo um valor que em algumas familias ultrapassa a 25,000 Mtn (vinte e cinco mil meticais). 

Quando acontecem cenários de violência doméstica, a família da noiva aconselha-na para aguentar, "que o lar envolve isso, que a noiva deve cumprir com os mandatários do noivo sem reclamar" em outros moldes, percebe-se aqui um receio por parte da família da noiva, sendo que, como cobraram taxas avultadas, não tem legitimidade para dizer a sua filha cessar com a violência doméstica, o que implicaria cessar com o casamento. Por via disso, pode se dizer que, a forma como o lobolo é conduzido atualmente, que considera a mulher como um instrumento de troca entre famílias, uma mercadoria, legitima a instauração e a continuidade da violência doméstica no seio do lar contra a noiva.

Dada o tratamento que o lobolo é dado nos nossos dias, o noivo e a sua família sentem que após o lobolo a noiva será a sua propriedade, podendo esta, ser aquela que indiscutivelmente deve total obediência ao marido e a família deste. alguns noivos chegam a dizer "agora que já paguei o que a sua família quis você é minha e deve saber que quem manda aqui sou eu, vais cumprir o que eu disser" (sic). 

O que fazer?
Se por um lado estão os mais velhos a cobrarem taxas avultadas, por outro as próprias noivas o exigem " não faço isso porque ainda não me lobolu"(sic.) Não estou a querer culpabilizar as mulheres pelo atual cenário, nem sequer anular a tradição, dado que entendo que esta faz parte da nossa identidade, o que quero aqui reiterar é o que Mucale (2017) chamou de modernizar a tradição. Se a essência do lobolo reside na união entre famílias porque não tornar isso simples, um almoço, que cobraças simbólicas, aliás, minha profunda indignação com as famílias que cobram o lobolo de uma pessoa sem vida.

Não a violência, nâo as somas avultadas de dinheiro. 
A minha geração vai mudar este cenário,
Eu acredito!!!

#AMAVconselhos
#Mapinhanensa!

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